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Manual de Instruções práticas para Abrir uma Escola Cristã

Manual de Instruções práticas para Abrir uma Escola Cristã

Por: Elias Barbosa da Silva

Maceió, Agosto de 2021

Este manual tem como propósito apenas apontar um caminho a seguir, de maneira que aqueles que pensam em abrir uma escola possam levar isso em consideração e assim não partir do zero. A pretensão não é que tudo se resuma a esta lista, pois outros itens podem ser acrescentados. A realidade se mostrará que cada um dos passos a ser seguido precisará de mais pesquisas e ações, pois novas necessidades podem surgir. Para um estudo mais detalhado sobre como organizar e desenvolver uma escola cristã é recomendada a aquisição do livro publicado pela Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI) – Organização e Desenvolvimento de uma Escola Cristã. https://www.acsi.com.br/lojavm/livros/organizando-desenv-detalhes

Esse livro da ACSI é bem completo, pois dará dicas, inclusive, sobre documentação escolar, contratação e avaliação de professores, declarações de fé, etc. E além do livro, a ACSI costuma realizar um encontro anual voltado para grupos que pretendem abrir uma escola cristã.

O material aqui apresentado é mais simples. É fruto das experiências adquiridas ao ajudar a abrir a Escola Cristã João Calvino em Maceió-Alagoas e também fruto de alguns conhecimentos adquiridos na participação de cursos ou leitura de livros.

A lista abaixo segue a partir do entendimento de que se trata de um contexto em que pais cristãos ou membros da igreja em geral resolvem abrir uma escola nos formatos convencionais para auxiliar os pais na educação de seus filhos.

É importante saber que a própria lei brasileira autoriza a criação de escolas confessionais (Artigo 209 da Constituição Federal – CF; Artigo 7º e 19 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB).

Passo-a-passo para abrir uma escola cristã:

Passo 1 – Provérbios 15.22: “Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito.”

O primeiro e grande passo é reunir um grupo de interessados no tema para pesquisar e compartilhar visões e expectativas. Eles podem orar juntos, estudar juntos e se encorajarem mutuamente. Juntos é sempre melhor que sozinhos para esse tipo de projeto grandioso.

Passo 2 – De quem é a escola?

Essa definição é um ponto de partida muito importante, pois um mal-entendido sobre esse projeto escolar pode acabar em problemas sérios entre membros da igreja e consequentemente redundar em problemas para o Conselho da igreja. A abertura de uma escola cristã pode surgir a partir da estimulação por parte do Conselho da igreja, mas o ideal é que a escola não seja um projeto do Conselho, pois a escola é um projeto muito complexo e não é papel do Conselho gerir uma estrutura escolar. A criação de uma escola cristã é um projeto que beneficiará toda a igreja, mas não precisa ser um projeto da igreja como instituição. Se ocorrer da escola ser um projeto da igreja, a recomendação é que o Conselho crie uma estrutura e nomeie uma Comissão de Educação para tratar de todos os assuntos relacionados a escola. A agenda do Conselho precisa priorizar o cuidado pastoral de seu rebanho. Seu envolvimento máximo na escola deveria ser o de orar e supervisionar como os pais estão cumprindo seus votos no batismo de seus filhos, o que pode incluir a matrícula em uma escola cristã. Membros do Conselho que fizerem parte de alguma comissão educacional precisam estar lá não por serem presbíteros ou pastores, mas por serem pais interessados na educação dos filhos da aliança.

Passo 3 – Criação de uma Associação da Escola Cristã.

A Escola é cristã e parte do entendimento de que educação é responsabilidade dos pais e ocorre no contexto da comunidade da aliança. Assim, todos os interessados no projeto devem se unir e formar uma associação legalmente estabelecida. Claro que inicialmente um grupo terá de estudar e criar um Estatuto que definirá os objetivos do projeto e a estrutura da organização, o que envolve: declaração de fé, perfil e papel dos membros, nomeação de conselho deliberativo e conselho fiscal, prestação de contas, distribuição de tarefas, etc. A associação é formada por voluntários, ou seja, que não são remunerados por serem membros da associação, mesmo aqueles que exercem uma função mais específica no Conselho Deliberativo ou Conselho Fiscal. Quando o momento chegar, ela terá de contratar um diretor executivo para a escola. Esse diretor é remunerado e será o trabalhador que implementará a visão da Associação. Esse diretor não é o dono da escola, mas um servo que implementa uma visão e se submete a esta visão. É preciso, porém, estabelecer com muita clareza as atribuições tanto do Conselho Deliberativo como do diretor executivo da escola, pois deve-se evitar o risco de membros do Conselho Deliberativo quererem micro-administrar a escola, assim como também pode ocorrer do diretor executivo querer criar um “muro” entre a escola e o Conselho deliberativo. A criação de estruturas claras no início é muito importante.

Observação: O ideal seria que desde o início a associação pudesse contratar um diretor, pois ele serviria para trabalhar em diversas esferas auxiliando a associação, especialmente considerando que muitos membros da associação têm seus trabalhos diários e nem sempre têm tempo para realizar determinados trabalhos.

Passo 4 – Visitar escolas cristãs já estabelecidas.

Aprender com a experiência de outros é muito importante. Procure viabilizar a possibilidade de realizar visitas a escolas já estabelecidas e conversar com os diversos profissionais que a administram. Também seria muito bom conversar com membros de associações de escolas cristãs para aprender com suas experiências em cuidar de uma escola.

Passo 5 – Procure Associações de Escolas Cristãs.

Existem associações que podem ajudar bastante no trabalho de abrir uma escola. Uma rápida pesquisa poderá mostrar diversas opções. Escolha aquela cuja visão e missão se alinhem mais com a escola que se pretende criar. Fazer parte de uma associação de escolas traz diversos benefícios. Algumas associações oferecem cursos com desconto, eventos e também livros. Mas isso não é o mais importante. Uma boa associação pode oferecer assistência e consultoria, além de representatividades valiosas em diversas esferas. Uma associação representa um universo de escolas e assim, estará sempre atenta as demandas da educação cristã. Isso é muito importante, especialmente nos dias de hoje. Por conhecer melhor, eu recomendo a ACSI – Associação Internacional de Escolas Cristãs.

Passo 6 – Procurar os órgãos competentes para fazer uma lista do que é exigido para abrir uma escola cristã.

Existem leis nacionais, estaduais e municipais que gerem a educação. Se o desejo é ter uma escola de acordo com a lei, esses órgãos não podem ser negligenciados. Até mesmo resoluções de sindicatos de professores e de escolas devem ser pesquisadas. Nesse momento, a existência de um diretor executivo pode ser bastante útil, mas também é possível a escola procurar algum tipo de consultoria profissional para agilizar a obtenção das respostas.

Existem leis que falam sobre a formação mínima dos funcionários da escola; sobre a quantidade de alunos permitidos na sala de aula, etc.

Não desanime com a lista. Ela pode ser extensa e burocrática, mas com o trabalho de todos ela será conseguida.

Passo 7 – Trabalhar na criação dos documentos fundamentais para a organização de uma escola cristã.

O Estatuto da Associação é fundamental pois ele é quem fundamenta o direito daquele grupo de abrir um projeto educacional. Ele deve ser apresentado junto com outras documentações exigidas. Mas no dia a dia de uma escola, os principais documentos que devem estar presentes nela são:

1 – Regimento Escolar: documento que vai gerir todos os relacionamentos dos envolvidos no processo educacional do estabelecimento de ensino. Também fala sobre como se darão os processos de matrícula, avaliação, normas disciplinares, calendário escolar, etc.

2 – Proposta Pedagógica (Currículo): Vai apresentar e fundamentar o conteúdo e as estratégias que serão adotadas para atingir os objetivos da aprendizagem dos alunos. Você precisará olhar a Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Associações de Escolas cristãs podem oferecer bastante apoio nisso.

 Além desses documentos, pode ser bastante útil a criação de um manual de instrução para pais, alunos e funcionários, pois podem tratar de maneira mais detalhada como serão os procedimentos dentro da escola.

Passo 8 – Sustentabilidade financeira da escola.

Esse tema é crucial e vai influenciar diretamente na estrutura da escola. Cada vez menos organizações se interessam por compromissos de doação de longo prazo para manter custos operacionais de escolas cristãs. É mais fácil conseguir uma doação para construir um prédio escolar ou para oferecer cursos para os professores do que ter parcerias de longo prazo para manter o funcionamento de uma escola cristã. E pensando nisso, a Associação Escolar precisa definir bem o que quer e como pretende concretizar seu plano. Uma escola que pretende atender apenas alunos de sua própria igreja ou denominação, terá um custo muito alto por aluno caso queira abrir uma escola nos termos da lei, pois a lei define a estrutura mínima para funcionamento de uma escola, independentemente da quantidade de alunos. Por exemplo: você precisa de um professor por série, mesmo que em cada sala haja apenas 10 alunos. E o gasto para gerir a escola deve considerar todos os funcionários: diretor, secretário escolar, coordenador pedagógico, professores, auxiliar de limpeza, auxiliar de sala, porteiro, etc, além dos demais gastos operacionais como energia, internet, equipamentos e suas manutenções, etc. É comum que uma escola pequena acumule tarefas para determinados funcionários, mas ainda assim, dependendo da quantidade de alunos de sua igreja ou denominação, os gastos serão muito altos e entrarão na balança quando os pais forem decidir matricular seus filhos na escola. Aqui temos de ser realistas! Uma família que ganha salário-mínimo não poderá pagar R$ 600,00 por mês para mandar seu filho para uma escola cristã.

É importante se pensar em como envolver toda a comunidade da igreja por meio de um trabalho de conscientização de que a escola cristã existe para o bem da comunidade da fé em primeiro lugar, mesmo que ela decida abrir para alunos de fora. Pode-se pensar em estabelecer uma contribuição fixa para todos os que resolvem fazer parte da associação e também solicitar ao Conselho a criação de uma oferta especial voluntária da igreja para a escola cristã.

Para viabilizar a criação e manutenção da escola cristã, pode ser necessário abrir para qualquer aluno que esteja procurando uma escola cristã. Isso não é um problema em si desde que a escola tenha documentações claras sobre sua filosofia de ensino e estrutura educacional. Há muitos pais que procuram exatamente uma escola que tenha valores e regras como as que a escola cristã oferece. Assim, eles facilmente se submeterão e apoiarão no que puderem.

Faz parte das atribuições de um diretor pensar em estratégias de marketing para divulgar a escola. Assim, é importante pensar em atingir o público evangélico para que entendam e procurem uma educação cristã comprometida com as verdades do Evangelho para seus filhos.

A escola precisa ter em vista que precisa procurar um ponto de equilíbrio financeiro que não apenas permita a operacionalização do projeto, mas também a criação de um fundo para emergências e para desenvolvimento. Tudo isso precisa ser contabilizado na hora de estabelecer um preço para a mensalidade. Também é preciso levar em conta que a educação envolve vários aspectos: morais, espirituais, intelectuais, emocionais e físicos. A oferta da educação deve buscar contemplar esses aspectos, mantendo-se fiel a sua confessionalidade, mas também atrativa aos que procuram uma educação diferente.

A educação cristã é diferente não por ter alguns versículos pendurados nas paredes das salas, nem por ter momentos de cânticos e oração, mas por ensinar de maneira consciente e consistente todo o conteúdo do ensino de acordo com uma cosmovisão cristã. Isso vai demandar investimentos em materiais didáticos e em capacitação profissional. Observar esses aspectos é muito importante, pois não se trata apenas de abrir uma escola, mas também administrá-la para que se desenvolva e se solidifique no decorrer dos tempos. É muito comum projetos educacionais iniciarem de acordo com espaços disponíveis na igreja ou em locais cedidos. Mas se o pensamento é de uma escola autônoma financeiramente, é preciso desde o início pensar estrategicamente sobre cada passo, o que deve incluir a aquisição de local cada vez mais adequado ao cumprimento da proposta educacional.

Passo 9 – Procurar parcerias para sustento financeiro.

Como dito no item anterior, cada vez menos organizações querem se comprometer por longo prazo para apoiar gastos operacionais de uma escola cristã. Mas não custa nada elaborar um projeto e procurar parcerias. O que vai pesar bastante é a capacidade que a Associação terá de convencer os doadores de que conseguirá a independência financeira no decorrer dos anos. A associação pode procurar vários tipos de parcerias:

A – pedido de doação para compra de móveis e equipamentos para a escola;

B – pedido de doação para aquisição de um terreno;

C – pedido de doação para construção do prédio escolar;

D – pedido de doação para apoiar o projeto escolar com “x%” durante “x” anos.

E – etc.

A procura não é garantia de sucesso, mas servirá como ponto importante para o planejamento financeiro, inclusive para determinar o momento ideal para iniciar o projeto.

Nesse aspecto de busca de apoio, muitas organizações considerando um fator determinante para liberação de apoio, a existência de uma contrapartida por parte do grupo que quer realizar o projeto e também a garantia de uma prestação de contas clara, precisa e auditável. Quando a igreja como um todo está envolvida, e quando os próprios membros da Associação mostram que estão dispostos a pagar quantia considerável para o projeto, é um forte indício de que ali há uma estrutura confiável.

Será muito difícil receber apoio quando os maiores interessados não mostram entendimento nem desejo de fazer sacrifícios para a criação e desenvolvimento do próprio projeto.

Passo 10 – Em qual bairro a escola será estabelecida?

A localidade também tem relação com a sustentabilidade financeira da escola. Apesar que o foco principal da escola será os membros da igreja, deve-se ter em mente que a escola não será iniciada para se acabar depois que a primeira turma concluir um ciclo. Assim, não se deve pensar em primeiro lugar no fácil acesso dos membros atuais, mas sim num local estratégico que garanta fácil acesso para qualquer um que pretenda frequentar a escola, inclusive de bairros mais distantes. É preciso que se observe se há pontos de ônibus próximos, se tem espaço para estacionamento, se o bairro tem o mínimo de segurança, se é rodeado de residências, etc.

É possível cair na tentação de priorizar o custo baixo para aquisição de um terreno, mas se tal terreno não for localizado em local estratégico, a escola fatalmente sofrerá com falta de alunos no futuro.

Passo 11 –  Contratação de funcionários.

A escola cristã é permitida ensinar de acordo com sua ideologia (confissão de fé). Logo, não é difícil de entender que é preciso ter funcionários que estejam alinhados com essa ideologia. Todo tipo de empresa procura funcionários que se alinhem com a missão, visão e os valores de tal empresa. Não é diferente com uma escola confessional. Esse será um ponto fundamental para que o projeto cumpra seus objetivos de educar os filhos dos crentes de acordo com a fé de seus pais. A escola precisa contratar professores que assinem a declaração de fé da escola. O ideal é que não apenas assinem, mas também vivam tal doutrina. A escola cristã não pode ser vista como uma oportunidade de emprego, mas como uma oportunidade de servir aos pais na educação de seus filhos. Às vezes a realidade se mostra que não há pessoas dispostas a trabalhar na área de educação. Uma solução possível é identificar aqueles com dons e até investir em cursos de formação de professores, para que a escola tenha mão de obra qualificada e alinhada com sua confissão de fé.

De maneira resumida e geral os setores básicos da escola são: direção, secretaria, coordenação pedagógica, professores, portaria, pessoal de apoio a manutenção e limpeza.

Dependendo do tamanho da escola, pode-se ter diversos setores: Tecnologia da Informação, marketing, segurança, controle disciplinar, recepção, etc.

Mas o normal é que no início, alguns possam receber alguns acréscimos de função, sendo remunerados por isso, ou simplesmente ter descrito em suas atribuições contratuais a inclusão de lista de tarefas diversas dentro de suas capacitações e carga horária. Por exemplo: é muito comum o secretário escolar ser o “recepcionista” da escola e também cuidar de aspectos financeiros.

Passo 12 – Estabelecer um plano de cargos e salários para todos os funcionários da instituição.

É muito comum escolas começarem na informalidade e só depois de alguns anos ela começar a se organizar em termos de legalidade trabalhista. Isso é muito perigoso. O ideal é realmente começar da forma correta, com todos os funcionários recebendo de acordo com a lei. Considerando a escassez, especialmente de professores, é importante a associação considerar fortemente a possibilidade de pagar um salário que não apenas seja de acordo com a lei, mas também atrativo. Isso também servirá para manter bons professores no seu quadro. Procure valorizar as formações acadêmicas em seus diversos níveis e também garantir que haverá uma linha do orçamento para investimento em capacitação dos profissionais de sua escola.

Passo 13 – Comunicação clara com os mantenedores, inclusive pais de alunos.

A escola precisa se comunicar com clareza e prestatividade com todos os que fazem parte do ambiente escolar. É importante incluir nessa comunicação os doadores de fora ou de dentro da própria igreja. Também a própria igreja como um todo precisa lembrar em orações daquele projeto tão importante de suporte a educação de seus filhos. Não perca oportunidade de manter sua igreja informada acerca dos principais acontecimentos e conquistas de sua escola. Não deixe para comunicá-los apenas no momento que precisar de apoio financeiro. O quanto mais cientes do projeto eles estiverem, mais fácil será ter sua contribuição.

Passo 14 – Estejam sempre dispostos a aprender.

Realizem eventos e treinamento não apenas para os profissionais da escola, mas também para membros da associação e sempre convide a igreja para que mais pessoas conheçam e se interessem pelo projeto educacional. A associação precisa ser renovada no decorrer dos anos. Por mais que os membros possam permanecer de maneira vitalícia na associação, o Conselho Deliberativo e Fiscal, e também outras comissões precisam ser sempre renovadas, mas sempre procurando garantir que os mais experientes compartilhem conhecimento com os mais novos. As pessoas passam, mas a associação precisa continuar firme.

Passo 15 – Quando possível invista num vice-diretor ou diretor adjunto para a escola.

A mesma lógica do ponto anterior: diretores passam, mas a escola permanece. Embora não seja automático que um vice-diretor assuma o cargo de direção, é sábio investir em alguém que tenha potencial de liderança e se revista da missão e visão da escola. Essa pessoa, ao mesmo também poderá ajudar e aprender junto com o diretor.

Considerações finais

Os itens acima são apenas uma lista de apoio e não um código oficial. Como falado acima, muitas necessidades podem surgir a depender do contexto de onde se pretende abrir uma escola. Mas com esta lista pode servir como ponto de partida para, pelo menos, um direcionamento de estudos.

Que Deus Abençoe a todos.

Elias Barbosa da Silva

Trabalhador em Educação Reformada

O ensino das Confissões no lar – Pr. Jim Witteveen

O Ensino das Confissões no Lar – Pr. Jim Witteveen

 

Deuteronômio 6:4-9 – “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas.”

Esta passagem é fundamental para o povo de Deus – não só para os Judeus, mas também para nós. Os Judeus chamam verso 4 de “Shema” – e os ortodoxos dos dias de hoje recitam este versículo a cada dia. Estes versos formam a constituição da aliança. Porque nessas palavras vemos a maneira como Deus realiza as suas promessas para o seu povo – por meio do ensino dos pais da aliança. A fé é transmitida de uma geração a outra por meio do trabalho dos pais fiéis. Deus faz promessas; mas estas promessas não são realizadas automaticamente. Podemos ver a realidade disso na palavra de Deus – quando os pais de Israel, por exemplo, não ensinaram seus filhos a obedecer os mandamentos de Deus, eles caíram, e caíram horrivelmente. No livro de Juízes você pode ler o que acontece quando os pais esquecem suas responsabilidades:

Havendo Josué despedido o povo, foram-se os filhos de Israel, cada um a sua herança, para possuírem a terra. Serviu o povo ao SENHOR todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué e que viram todas as grandes obras feitas pelo SENHOR a Israel. Faleceu Josué, filho de Num, servo do SENHOR, com a idade de cento e dez anos; sepultaram-no no limite da sua herança, em Timnate-Heres, na região montanhosa de Efraim, ao norte do monte Gaás. Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o SENHOR, nem tampouco as obras que fizera a Israel” (Juízes 2:6-10).

Foi uma situação muito triste: a geração nova “não conhecia O SENHOR.” Como é possível que isto acontece? Somente é possível quando os pais não ensinam suas crianças.

Quando apresentamos nossas crianças para serem batizadas, nós fazemos promessas solenes. Nós prometemos que vamos ensinar nossas crianças, e que vamos “fazer todo o possível para que” nossas crianças sejam instruídas naquele ensino. O ensino de nossas crianças é, em primeiro lugar, nossa responsabilidade. Não é simplesmente a responsabilidade do pastor, ou dos presbíteros. Sim, eles têm responsabilidade; mas esta responsabilidade é delegada a eles por nós – pelos pais. Eles nos ajudam a ensinar nossas crianças, eles não têm toda a responsabilidade. As pessoas que têm a influência maior nas vidas de nossas crianças não são o pastor e os presbíteros. As pessoas que têm a influência maior nas vidas delas somos nós!

 

Particularmente o pai precisa guiar a sua família nos caminhos de Deus. A sua liderança inclui orar com (e pela) família; ler as Escrituras com a família; falar sobre estes assuntos com as crianças; responder a suas perguntas; e ensinar os fundamentos da fé.

Duas horas por semana não é suficiente para um trabalho tão importante. Isso não é somente uma atividade a mais dentre muitas outras – nossas responsabilidades incluem toda nossa vida – em casa, andando pelo caminho, quando nos deitamos, quando nos levantamos. Nossas vidas não são divididas em compartimentos distintos – a vida religiosa de um lado, e a vida secular por outro lado. Quando nós, como pais, deixamos o trabalho de ensinar nossas crianças nos caminhos de Deus para os oficiais da Igreja, essa é a mensagem que estamos comunicando para nossas crianças. Ensinamos a elas que nossa religião é somente um aspeto de nossa vida, e não o centro da vida inteira. O resultado disso é a formação de “Cristãos de Domingo” – pessoas que vivem como Cristãos somente nos domingos, e vivem como o mundo no resto da semana.

Não vai ser fácil. Trabalho importante é trabalho duro. Ensinar nossas crianças exige um compromisso total. Exige auto sacrifício, e dedicação aos outros deveres. Tudo isto toma tempo. Mas este tempo é tempo usado para Deus, e é tempo que Ele usa para dar bênçãos – não somente aos que são ensinados, mas também aos que ensinam. O melhor maneira de aprender é ensinar a outros!

Então, como podemos usar as confissões no ensino de nossas crianças?

Em primeiro lugar, temos nosso catecismo. O catecismo foi escrito particularmente para ensinar as crianças. O príncipe de Heidelberg viu que havia muitas crianças na igreja que não sabiam os fundamentos da fé. E assim, ele comissionou o escrito de um catecismo – escrito com perguntas e respostas, particularmente para crianças. Cada semana, as crianças memorizavam um Dia do Senhor. Em um ano, eles aprendiam os fundamentos – os dez mandamentos, o credo apostólico, e a oração do Senhor. Eles aprendiam sobre seus pecados e miséria, sobre os meios de salvação, e sobre como eles podiam agradecer a Deus por toda sua vida.

A educação nos domingos não é suficiente para “ensinar a criança no caminho em que deve andar” (Provérbios 22:6). Sua educação Cristã deve ser integrada com suas vidas do dia a dia. Essa prática ensina nossas crianças que fé não é apenas ir a igreja aos domingos, mas é o centro de nossa vida. Na sala de jantar, após a refeição, pratique o catecismo no Dia do Senhor que seus filhos estão estudando naquela semana, ou o Dia do Senhor que vai ser o assunto da pregação no próximo domingo. Pergunte a seus filhos: Qual é o seu único consolo na vida e na morte? E os ensine que o consolo deles não é achado nas posses, nos amigos, no dinheiro, na educação, nos prazeres da vida, nos esportes, nem mesmo na família. Seu único consolo na vida e na morte é pertencer a seu Salvador fiel, Jesus Cristo.

Não vai tomar muito tempo – não estou dizendo que vocês precisam pregar um sermão após o jantar cada noite. Se seus objetivos são irreais, não vai conseguir cumpri-los. Vai se sentir desencorajado, e vai desistir. Comece tomando pequenos passos. Dez minutos por dia, três dias por semana. Estabeleça objetivos realistas – é melhor fazer algo, que não fazer nada, mesmo que você não está realizando tudo que você quer realizar.  Desta maneira podemos encorajar nossas crianças a estudar as Escrituras e as confissões – e temos oportunidade de prover respostas as perguntas deles, e discutir as coisas de Deus, coisas profundas e significativas. Desta maneira mostramos o amor de Deus para nossas crianças!

Quando eles aprendem isso, quando eles memorizam esta confissão, eles vão ter uma resposta pronta às perguntas de outras pessoas – de seus colegas, seus vizinhos e amigos. Por que você vai a igreja? Por que você não participa em certas atividades? Por que você lê a Bíblia e ora? Quando eles são questionados, eles vão ter uma resposta preparada – “Eu não pertenço a mim mesmo, mas pertenço de corpo e alma, tanto na vida quanto na morte, ao meu fiel Salvador Jesus Cristo.” Nossas crianças podem aprender essa verdade quando eles têm cinco anos – e nos anos seguintes, eles podem aprender o que essas palavras significam.

A memorização não faz parte da moda nos meios educacionais nos dias de hoje. Mas ao longo da historia, a memorização foi considerada fundamental para a educação das crianças. Os pensamentos que nós temos muitas vezes são sobre coisas que já memorizamos. Quando você está passeando, ou dirigindo, ou lavando pratos, o que está em sua mente? Letras de música popular que você ouviu quando era criança? Tenho vergonha de dizer que eu me lembro mais de letras de canções ruins do que ensinamentos da Palavra de Deus. Porque eu as memorizei quando era jovem – e estas letras jamais serão esquecidas. Mas o mesmo se aplica às boas palavras que memorizamos quando somos jovens. Quando Cristãos envelhecem, eles vão lembrar dos salmos que memorizaram, do catecismo que memorizaram, das passagens da Escritura que memorizaram. E estas palavras vão prover consolo e encorajamento, mesmo quando eles terão esquecido cada outra coisa. Entendimento começa com memorização – é o indispensável primeiro passo.

Então, este tipo de catequese diária tem dois benefícios. Em primeiro lugar, nossas crianças vão aprender o conteúdo da fé. Elas vão saber os fatos da fé Cristã, de em uma maneira pessoal. Mas também, por meio da pratica diária, elas vão crescer em entendimento do modo da vida Cristã. A vida Cristã é uma corrida. Mas é uma maratona, não uma corrida de 100 metros rasos. Precisamos de dedicação. Precisamos trabalhar. Precisamos ser consistentes. Precisamos nos dedicar a práticas da vida Cristã, ainda quando é inconveniente. Mostramos essa verdade a nossas crianças quando nos dedicamos a ensiná-las com o catecismo dia a dia. Elas vão compreender o quão importante nossa fé é quando eles perceberem que nós levamos nossa fé a sério – quando nós praticamos o que pregamos.

E também, essa prática nos ajuda a evitar dois erros no pensamento e entendimento de nossas crianças. O primeiro é o tradicionalismo e o legalismo. Quando as crianças não sabem porque elas vão a igreja, porque a família deles segue uma tradição particular, a religião não vai viver no coração. Vai ser uma questão somente de obediência exterior – obediência a certas regras: faça isso, não faça aquilo… sem conhecimento sobre o porquê que nós vivemos deste modo. Quando elas crescerem, elas vão saber as regras, mas não vão conhecer Cristo! Quando as pessoas sabem as tradições, mas não o que as tradições significam, as tradições vão escravizá-los. O resultado é uma igreja morta, cheia com pessoas que não vivem em Cristo. Este é o caminho para liberalismo e nominalismo, um caminho em que nós não queremos seguir.

O segundo erro é este: se nossas crianças não sabem o conteúdo da fé, elas serão vítimas fáceis dos inimigos de Cristo – as seitas que querem enganá-las; o mundo descrente que quer capturá-las; a descrença, as obras da carne, que vai atacá-las quando elas não sabem no que acreditam. Elas não vão ter o escudo da fé, com o qual poderiam apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Elas serão vítimas da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos, e da soberba da vida. Elas vão rejeitar a fé completamente, porque elas não conhecem a gravidade do pecado, o significado da salvação, a grandeza da graça de Deus, e como devemos responder a esta graça – todos os assuntos de nosso catecismo!

Em conclusão, quando usamos os confissões com nossas crianças, esses documentos permanecem documentos vivos, não somente documentos históricos. Isso serve para proteger a fidelidade da igreja de geração em geração. Deus tem usado meios para preservar a Igreja ao longo dos séculos. E um meio que Ele tem usado e que continua a usar é a fidelidade dos pais que ensinam suas crianças.

Crescimento na fé não acontece automaticamente, como eu já disse. Por isso nós encorajamos os pais da aliança a manterem esta prática.  “Pais, não provoqueis vossos filhos a ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (Efésios 6:4). “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Provérbios 22:6).

Graças a Deus, Ele é fiel. Ele é “o SENHOR, teu Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos” (Deuteronômio 7:9). Não temos garantia que nossas crianças permanecerão fiéis se nós as ensinamos fielmente. A fé delas também é a obra do Espirito Santo. Mas sabemos isso: Deus abençoa o trabalho fiel do seu povo.

Que Deus nos conceda o desejo e a perseverança para que possamos cumprir a nossa responsabilidade com amor.

Dicas para um ano letivo de Sucesso

Para aqueles que se utilizam do sistema regular de ensino, estamos no fim de um ano letivo. Mas não é cedo demais para já nos planejarmos para o ano que vem. É muito comum que pais achem que o planejamento se refere a apenas renovar a matrícula dos filhos e sair para comprar os materiais e livros com antecedência, antes que os preços aumentem.

Mas para que o ano letivo do seu filho seja proveitoso, é necessário ir muito além da aquisição de materiais e livros didáticos. Na verdade, materiais e livros são apenas apoio para o aprendizado. No fim das contas, será a dedicação e disciplina de seu filho que vão determinar seu sucesso no aprendizado. Na verdade, a disciplina nesse sentido é uma via de mão dupla. Os pais são tão responsáveis quanto seus filhos. Pois os filhos precisam aprender dos pais a disciplina. … [continuar em anexo Dicas para um ano letivo de sucesso.pdf]