Igreja, Lar e Escola – Como assim um tamborete de duas pernas?

By 27 de outubro de 2017Artigos

Igreja, Lar e Escola – Como assim um tamborete de duas pernas?

Por Kent Dykstra

Uma metáfora popular para a educação na comunidade Reformada é a imagem de um triângulo, um tripé ou um banquinho (tamborete) de três pernas. As pernas do tamborete são chamadas de igreja, lar e escola. Se uma dessas pernas estiver faltando, todo o tamborete vem a baixo. Ao manter este modelo em mente, podemos manter três instituições fundamentais funcionando corretamente na comunidade.

O modelo de tripé da educação tem uma longa história em nossos círculos reformados. Seus defensores o usaram para defender uma série de princípios relacionados à educação reformada. De acordo com o modelo, a instituição de uma escola cristã é uma responsabilidade de todos os membros da igreja e, portanto, deve ser financiada por todos. Além disso, o modelo assume que o lugar das crianças é na escola e não em casa. E assim, famílias que educam seus filhos em casa, não apenas os privam da influência da escola, mas também não estão apoiando seus irmãos e irmãs no compartilhar do fardo de ter uma escola cristã.

A visão da educação como um banquinho de três pernas tem seus pontos fortes. O apoio comunal da educação reformada é certamente positivo. Além disso, o modelo faz um bom trabalho descrevendo as influências sobre a educação de uma criança – as crianças são de fato influenciadas pela igreja, pelo lar e pela escola. (Vou deixar para outros escritores o debate acerca do impacto do mundo nesta equação.)

OS LIMITES DO TRIPÉ

No entanto, em minha opinião, o modelo triangular ou de tripé da educação também tem suas limitações. Se tentarmos usar o modelo para descrever as responsabilidades das várias partes na educação de uma criança, o modelo se quebra. Ele acaba atribuindo muita importância a apenas uma das pernas – a escola.

Quando as escolas se dão muita importância, podem ser vistas como instituições que têm uma vida por si próprias. Especialistas em educação, chamados de professores, reúnem os filhos da congregação. Eles assumem a responsabilidade pelo bem-estar educacional das crianças como sua responsabilidade. O envolvimento dos pais na educação é limitado a fornecer alimentação física, enquanto a escola fornece alimentação mental. Na melhor das hipóteses, o alimento espiritual é compartilhado entre o lar e a escola; na pior das hipóteses, a responsabilidade pelo bem-estar espiritual recai cada vez mais para a escola. O Conselho da Escola[1] fornece recursos financeiros e cuida do prédio escolar sem se envolver demais em assuntos educacionais. As tentativas de envolver os pais na tomada de decisões educacionais são facilmente descartadas. Afinal, o que os pais sabem sobre a educação?

Essa imagem da educação está longe do que a Escritura ensina. A famosa passagem em Deuteronômio 6: 4-9, que foi usada para abrir muitas reuniões da sociedade escolar, é dirigida diretamente aos pais: “tu as inculcarás a teus filhos …” No Salmo 78, novamente vemos a imagem dos pais contando a seus filhos, os grandes feitos do Senhor. Embora tenhamos uma ampla menção nas Escrituras sobre o papel da igreja e do lar, não encontramos uma menção à instituição da escola.

A Escritura ensina que a educação é uma responsabilidade dos pais. E junto com a responsabilidade, Deus também dá os meios para cumprir essa responsabilidade. Em Hebreus 13:21, Deus prometeu nos equipar com tudo o que precisamos para fazer a vontade dele, que certamente inclui a educação de nossos filhos. Isso significa que cada pai é, de alguma forma, um especialista em educação.

Com certeza, nem todos os pais estão equipados com o mesmo grau para tarefas educacionais específicas. Também faz parte da responsabilidade reconhecer os próprios pontos fracos. Por isso, os pais podem, e muitas vezes devem, usar escolas para ajudar no cumprimento de sua tarefa. Mas isso não tira o fato de que a responsabilidade por esta educação recai aos pés de cada pai, não aos pés da escola – e certamente não aos pés do governo.

OS PAIS VÊM PRIMEIRO

Em vista disso, talvez um modelo de “duas pernas” seria mais apropriado. A escola não deve ser vista como uma entidade separada com suas próprias responsabilidades para com os filhos da congregação, mas como uma extensão do lar.

Em um certo sentido, todos somos homeschoolers[2]. No entanto, as exigências da educação na sociedade moderna estão além das capacidades, energia ou tempo de muitos (se não a maioria) dos pais. Como resultado, nos unimos como um grupo de pais com propósitos iguais e formamos uma sociedade. Nós construímos um edifício. Contratamos professores e administradores profissionais. Nós juntamos nossos recursos financeiros. Pedimos assistência de outros membros da congregação que não têm filhos em idade escolar. Nós formamos uma escola… uma escola cristã.

Essa visão de educar está em oposição direta à visão secular das escolas, que vê as escolas como agentes da socialização. Nas escolas públicas, as crianças estão presas à tensão da questão – a quem pertencem as crianças: aos pais ou o estado?

Nossas escolas reconhecem o fato de que a resposta a esta pergunta é clara – aos pais! Por exemplo, o Manual dos Pais da Escola William de Orange[3] afirma:

De acordo com Deuteronômio 6 e Salmo 78, os pais têm a tarefa de criar seus filhos no temor do Senhor … Os mesmos valores que são valiosos para os pais precisam ecoar ressonantemente … na sala de aula (Do Jardim à Cidade, p. 26 e 27).

A ideia de que a escola é uma extensão do lar tem implicações para nossas escolas, algumas das quais quero destacar aqui.

  1. Envolvimento dos pais é um dever

Primeiro, isso significa que o envolvimento dos pais não é apenas desejado, é uma necessidade! Não podemos deixar a educação de nossos filhos para “os especialistas” por trás das portas fechadas da sala de aula. Precisamos estar envolvidos na busca da conscientização acerca do que nossos filhos estão aprendendo, tanto perguntando aos nossos filhos, como também visitando sua sala de aula. Estar envolvido também significa dar uma contribuição sobre a direção curricular que a escola deve tomar e ajudar a manter a escola funcionando sem problemas, compartilhando nossos talentos e tempo. Este envolvimento dos pais também assume a forma de trabalho voluntário nas trincheiras – das salas de aula! Uma cultura voluntária forte em uma escola é uma grande benção para os alunos.

Os professores precisam acolher e abraçar essa cultura do voluntariado. Os voluntários não somente podem tornar mais fácil e eficaz o trabalho do professor, como também representam uma prova viva de que os pais da escola levam a sério seus papéis. Além disso, os voluntários têm um efeito positivo sobre os alunos, pois veem que sua educação é importante o suficiente para que seus pais passem um tempo na escola.

  1. A comunicação pais-professores é um dever

Em segundo lugar, essa visão da escola destaca a importância de uma boa comunicação entre a escola e o lar. Esta comunicação precisa acontecer em ambas as direções. As escolas têm a obrigação de informar aos pais sobre o que está acontecendo nas salas de aula e em torno da escola. Os pais também precisam manter os canais de comunicação abertos. Eles precisam fornecer informações sobre seus filhos que ajudarão a escola a tomar as melhores decisões educacionais para eles. Eles precisam ser proativos no tratamento de problemas e desafios na escola. Eles precisam externar suas opiniões sobre a direção curricular, de modo que o que é ensinado na escola pode ser um reflexo do que é ensinado no lar.

ESCOLAS ESTABELECIDAS PELOS PAIS ≠ ESCOLAS ADMINISTRADAS PELOS PAIS

No entanto, esse modelo não implica que cada pai tenha autoridade para tomar decisões educacionais pela escola. Nossas escolas são escolas estabelecidas pelos pais, com certeza! Mas não são escolas administradas pelos pais. Em vez disso, elas são escolas administradas por um Conselho. A diferença é tênue, mas significa que os pais delegam parte de sua autoridade ao conselho elegido por eles. Como Conselho (não como pais individuais), eles tomam decisões em favor da escola; decisões que acreditam estarem alinhadas com os melhores interesses da comunidade. Embora não possamos concordar com cada decisão, chega um momento em que nos submetemos ao melhor julgamento de nosso conselho eleito.

Além disso, esse modelo não implica que a educação domiciliar seja necessariamente melhor que educação em escolas da comunidade. Nossas escolas nos permitem reunir nossos recursos e nossos pontos fortes. Especialmente em nível de ensino médio, poucos pais podem combinar a amplitude de conhecimento ou experiência que é representada por uma equipe. Nossas escolas oferecem oportunidades para nossos alunos que não receberiam em casa, como grupos de música instrumental, equipes esportivas e oportunidades de voluntariado. Nossas escolas são um bom caminho para os pais cumprirem sua responsabilidade de educar seus filhos.

Um tamborete com duas pernas não fica de pé muito facilmente. E é verdade que, se ficássemos sozinhos, como pais e igrejas, todos os nossos esforços cairiam em curto prazo. Mas, felizmente, não ficamos sozinhos. É o Senhor que segura nossos esforços para educarmos nossos filhos em Seus caminhos em um ambiente em que eles podem ser cercados por Seu povo pactual.

Kent Dykstra é o Diretor da Escola Cristã Credo de Ensino Médio em Langley, BC. Seu artigo, originalmente intitulado “Igreja, lar e escola – um banquinho de três pernas?” apareceu pela primeira vez na Revista Clarion (Vol. 59, nº 21) e, em seguida, na edição de janeiro de 2014 na Revista Perspectiva Reformada. É reeditado aqui com permissão.

Traduzido por Elias Barbosa da Silva com autorização do autor.

educacaoreformada.com.br

Original disponível em http://reformedperspective.ca/church-home-and-school-a-two-legged-stool/

[1] Em alguns meios, o Conselho da Escola é conhecido como Diretoria da Associação ou Conselho Deliberativo, que representam os mantenedores do projeto escolar.

[2] Termo usado para descrever famílias que educam os filhos em casa, não os enviado para a escola regular.

[3] A Escola William de Orange fica localizada em Surrey, BC, Canada.